segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Muito mais superestrela do que qualquer outra coisa


Foi-se o tempo de "Anticristo superstar". Marilyn Manson já não choca mais ninguém (a exceção fica por conta de pseudo-polêmicas, como a cena em que supostamente faz sexo com a namorada, a atriz Evan Rachel Wood, no clipe de “Heart-Shaped Glasses”). Hoje, ele só quer cantar sobre as desilusões do amor. Parece uma metamorfose bizarra, mas não chega a tanto. O que acontece é que ele não é mais o mesmo. E essa mudança foi gradual.

A verdade é que o discurso e as atitudes do cantor foram deixando de incomodar. Tudo se tornou repetitivo. Com isso, sobrou espaço para que as aventuras e desilusões amorosas de Brian Warner, o homem por trás do personagem, se tornassem o tema central. É estranho ouvir Manson cantando coisas superficiais como a letra de “Heart-Shaped Glasses”, primeiro single de “Eat Me, Drink me”, mas não dá para dizer que o disco é ruim, tampouco é possível elogiá-lo. O lado bom é que, musicalmente, a ausência de Twiggy Ramirez (antigo baixista e co-compositor) foi finalmente superada.

A melodia é o ponto forte das músicas, diferentemente do que aconteceu no álbum anterior, “The Golden Age of Grotesque”, que também não chega a empolgar. Em “Eat Me, Drink Me” as inovações vão além da temática: algumas músicas têm longos solos de guitarra, a gritaria e a agressividade ficaram em segundo plano, embora não tenham sido totalmente deixadas de lado. Mas o disco não convence. Em poucos momentos o romantismo gótico de Manson realmente emociona. Há boas músicas, mas não existe mais impacto. O personagem de Brian Warner, outrora intenso, insano e raivoso, tornou-se débil, sóbrio e ineficaz.

Shows no Brasil

Talvez o problema seja auto-indulgência, talvez Marilyn Manson tenha dado tudo o que tinha de dar e não há mais rumo a seguir. Ou as duas coisas. Pode ser só falta inspiração. A verdade é que, depois da última aparição do cantor no Brasil, é impossível negar que algo está errado. As exigências peculiares (três camarins com três geladeiras cada, por exemplo) para apresentar-se no Vídeo Music Brasil já mostravam um certo estrelismo do cantor, que, depois de 11 anos, voltou ao Brasil para fazer dois shows decepcionantes (um em SP e outro no RJ).

No Rio de Janeiro (25/09), com um set-list magro e mal planejado, a banda tocou apenas 13 músicas, quatro delas do último álbum (“If I Was Your Vampire”, “Just a Car Crash Away”, “Heart-Shaped Glasses” e “Putting Holes in Happiness”), ignorando hits importantes como “Tourniquet”, “The Nobodies” e “Great Big White World”. A banda é ótima, todos são bons instrumentistas, e Manson cantou muito bem (ao contrário do que aconteceu no VMB). Mas algo ficou faltando.

Dizer que o show foi curto pode parecer chatice de quem espera mais do que deve, mas não é. Depois de tocar as duas primeiras músicas, a banda saiu do palco e só voltou depois de dez minutos. Um sujeito falou ao microfone (em português!) que houve "falha técnica", numa cena atípica, e o show recomeçou. Ou seja, com esta e outras pausas, a apresentação não durou nem uma hora. No fim, o público esperou em vão por um segundo bis, já que ninguém acreditava que a apresentação seria tão curta. Mas Manson deixou os fãs carentes, não só dos clássicos não tocados, mas, acima de tudo, de uma performance vigorosa. Faltou garra, vontade, sangue (também no sentido literal, já que o músico não se corta mais ao tocar “Sweet Dreams”) :).

Que o cantor não fazia mais as mesmas loucuras no palco todos já sabiam. O que não se podia imaginar é que sua apresentação seria tão curta e burocrática. Para completar, Manson queimou ainda mais o próprio filme ao se apresentar no VMB. Sem a boa voz que mostrou nos outros shows, o cantor pagou vários micos: quebrou o púlpito dos apresentadores, brigou com um cinegrafista e, para piorar, cantou muito mal. Depois das exigências esdrúxulas, da falta de garra e de tanta auto-indulgência, só resta declarar que Marilyn já não é mais o “Reverendo Manson”, tampouco o Anticristo. Só que agora, mais do que nunca, ele se acha uma super-estrela. Uma pena!

Coincidência

Enquanto Brian Warner insiste em ser Marilyn Manson, Jeordie White, ou Twiggy Ramirez, como era conhecido, resolveu deixar seu personagem de lado: "Sinto um pouco de saudade dos tempos de Twiggy. Na época, era sério: os vestidos, as maquiagens, o teatralismo, toda aquela piração. Mas cheguei em um ponto onde comecei a me sentir meio ridículo. O personagem era real, mas começou a virar uma imitação de si mesmo. Se eu voltasse a fazer isso, eu não seria quem sou agora". Fica aí a dica...







Clique para ver a apresentação de Manson no VMB.