sábado, 23 de maio de 2009

ENTREVISTA COM ANDREAS KISSER

O guitarrista do Sepultura detona o Carnaval, o Cavalera Conspiracy, defende o heavy Metal, fala sobre drogas, ocultismo, possibilidade de retorno da formação original e o novo disco da banda, A-Lex. Também elogia Hudson, da dupla sertaneja Edson e Hudson.


Depois de mais de um ano longe deste blog, o retorno. Apesar de, após me formar, ter trabalhado como repórter de Polícia, e agora, redator e colunista de Economia, fiz uma matéria para o segundo caderno do jornal em que trabalho.

Como trata-se de uma publicação popular, não houve na matéria espaço para algumas das melhores respostas. Sendo assim, a entrevista na íntegra sai aqui, no Bronquite Asmática.


BRONQUITE ASMÁTICA – Na primeira vez em que eu te liguei, você me disse que não poderia falar porque precisava ir buscar os filhos na escola. As pessoas, em geral, esperam que o heavy metal seja ligado apenas a loucura, agressividade, um lance barra pesada, mas parece que, hoje, a banda está bem família...


Andreas Kisser – Na verdade, sempre foi. Infelizmente o metal tem essa característica de as pessoas que não o entendem verem dessa forma, como violento, ignorante, estúpido... mas não é isso. O heavy metal é uma coisa grandiosa, cheia de pessoas inteligentes fazendo parte.

Para tocar heavy metal é preciso se dedicar muito ao seu instrumento, não é uma coisa simples. E tem gente que acha que não é nem música.

Mas é uma coisa para a qual é necessária uma técnica peculiar, exclusiva do estilo, que você tem que se dedicar como músico. Sepultura sempre ensaiou muito, desde o começo. A gente ensaiava todo dia, é uma coisa que a gente fazia naturalmente. É necessário para a banda evoluir.

Mas a gente sempre teve nossas famílias estruturadas em torno da banda. Se não fossem nossas famílias, a gente não teria condições de ser uma banda.

Muitos dos meus amigos que tinham banda não puderam levar a coisa adiante porque tiveram que procurar trabalho, cortar o cabelo, não fazer tatuagem, etc. Então eu tenho que agradecer muito à minha família.

Hoje eu sou casado, tenho três filhos, minha mais velha tem 14 anos. O Iggor tem três filhos, o Jean também, o Derrick vai ter o primeiro filho agora em junho. Só o Paulo que ainda está caçando aí (risos).

Mas a gente tem uma estrutura familiar que ajuda a gente a ter esse equilíbrio, não só estar na estrada, na loucura do rock, que realmente existe, e se você não tiver discernimento, equilíbrio, você cai muito fácil nesse mundo.

Está todo mundo te elogiando, você tem álcool na hora em que quiser, todo mundo te paga tudo, então você tem que ter uma cabeça muito boa para não entrar em furada.

Mas o heavy metal é pacífico. É uma música agressiva, mas te liga à sua agressividade saudável. Você vê Carnaval, um dando porrada na cara do outro de graça. Aquela turma de abada, tipo em Salvador. Principalmente no Carnaval, que o brasileiro acha que é um momento de alegria, de festa, mas é ali que está a estupidez, e não no heavy metal.

O metal tem muito a oferecer. E espero que o Sepultura e as outras bandas possam mostrar que o heavy metal é uma coisa bem organizada e feita por gente que trabalha muito, não é só baderna nem festa.


Por que a banda resolveu fazer dois discos conceituais (Dante XXI, baseado na obra literária A Divina Comédia; e A-Lex, referente ao filme Laranja Mecânica) seguidos?

Acho que discos anteriores, como Roots e Nation, não deixam de ser conceituais. Principalmente o Roots, que faz uma pesquisa das origens da música brasileira, com os índios xavantes, participação do Carlinhos Brown, etc, e Nation, com aquela ideia de uma nação utópica, tudo girando em torno de um certo tema.
Mas é verdade, o Dante XXI e o A-lex são totalmente diferentes, são totalmente definidos, né, em cima de um livro, de um filme, e vieram mesmo da experiência de fazer trilha sonora para filmes.
Eu e Iggor fizemos uma trilha 10 anos atrás, nossa primeira trilha, aliás, para O Coração dos Deuses, filme de Geraldo Morais, e depois fui convidado para fazer outras trilhas com o Tony Bellotto, Charles Gavin, para o filme Bellini e a Esfinge, tanto que o Sepultura fez também para Lisbela e o Prisioneiro (em parceria com Zé Ramalho, tocando A Dança das Borboletas).
Então vi que é interessante escrever música para filme, e é totalmente diferente de escrever para a banda, pois no filme você tem certos limites que precisam ser respeitados, principalmente a ideia do diretor, o que ele quer para as cenas, o enredo, o personagem, em tudo isso você tem que trabalhar de acordo com limites.
Quando você tem isso, você fica mais criativo, na verdade. É um efeito McGiver (em alusão ao seriado americano, famoso pelas façanhas do personagem que lhe dava nome), você tem menos, mas tem que fazer mais. Então, eu achei tudo isso bem inspirador, na verdade você extrapola seus limites porque tem de fazer as coisas acontecerem.
Então essa foi a ideia para a banda quando fomos fazer o Dante. O Derrick sugeriu A Divina Comédia... eu já tinha sugerido Laranja Mecânica, mas a gente optou por A Divina Comédia, que é um livro riquíssimo.
Poderíamos fazer mais de 20 discos só com o livro. E como a experiência foi boa, foi muito bem aceito, apesar de o Iggor ter saído da banda logo depois de fazermos o disco, nós resolvemos usar essa ideia do Laranja Mecânica daquela época, pois a experiência tinha sido boa, a gente curtiu muito fazer isso nesse formato.

Qual a importância do filme Laranja Mecânica para o Sepultura?

É um clássico do cinema... Na primeira vez em que assisti, achei chocante, apesar de não ter violência explícita, de você não ver osso quebrando, sangue jorrando e etc. Mas é uma violência psicológica. O (diretor Stanley) Kubrick fez uma coisa muito foda.
E ainda tem a atuação do Malcom McDowell, fantástica, e o lance musical, com trilha sonora repleta de música clássica, única...
Mas eu fiquei mais impressionado mesmo foi com o livro. Quando a gente resolveu trabalhar esse tema, aí sim fiz uma pesquisa mais aprofundada, lendo o livro, conhecendo mais sobre a vida do (autor) Anthony Burgess, e por que ele escreveu, onde, em que época.
Enfim, tudo ajuda a entender melhor a obra e tirar o máximo que a gente pode para um disco do Sepultura. E o livro é muito mais explícito, mais completo. Ali tem osso quebrado, olho caindo, sangue, e etc, então ficamos muito mais inspirados pelo livro, e resolvemos fazer nossa própria versão, não ficar tão preso à versão do Kubrick.


O Sepultura já tocou com os índios xavantes, já buscou diferentes referências musicais, e agora buscou elementos da música clássica. Isso se deve só à abordagem de Laranja Mecânica ou tem um outro sentido? Era algo que o Sepultura desejava fazer anteriormente?

Não, acho que é algo que a gente até usou no Nation, até no Against, que tem uma música com cello (violoncelo). No Nation a gente tem uma participação com o Apocalyptica, banda que faz som de metal com quatro cellos... espere só um momento (conversa com alguém, dizendo "não me interrompe, estou no caminho da ideia, não consigo conversar com os dois, estou falando de outra coisa").
Eu sempre gostei de música clássica, eu estudo violão erudito há algum tempo, desde pequeno, meu pai tinha discos de Mozart, Beethoven, Bach, e a música clássica com o metal já tem uma relação muito estreita, né, desde a época do Deep Purple, com o (tecladista) Jon Lord, o próprio (guitarrista) Ritchie Blackmore, algumas melodias, algumas características clássicas para o heavy metal, o próprio Yes, né, com o (tecladista) Rick Wakeman, e mais explicitamente o Yngwie Malmsteen, um virtuoso da guitarra, o Paganini (compositor e violinista italiano que revolucionou a arte de tocar violino) da guitarra, praticamente...
Então não é uma coisa muito estranha no meio do rock pesado. Além do mais, Beethoven é muito pesado, né, meu, acho que Beethoven é o primeiro heavy metal da história, né? É uma música muito pesada, muito intensa, muito tensa, então acho que foi legal misturar a música do Sepultura com o Beethoven.

Que tipo de música tem influenciado o Sepultura atualmente?

Putz, cara, eu posso falar por mim, eu não tenho me influenciado por música nenhuma, assim... eu tenho meio que me afastado muito e procurado influência musical fora da música, né?
Enfim, acho que esse lance de usar os livros é um exemplo disso, de não ficar tão preso, né? Porque você escuta as músicas e você vai acabar fazendo alguma coisa parecida, né? É uma influência natural, assim...
Mas é lógico que eu escuto música, mas eu não sou um caçador de música, não fico fazendo downloads e querendo saber das novidades. Então eu deixo a música chegar naturalmente, como que para qualquer um que não seja profissional da música.
Escuto rádio, ou alguns CDs velhos que eu tenho, coloco no Ipod, ou muita demo de bandas interessantes por aí que aparecem na estrada, não só no Brasil como em todo o mundo, bandas que misturam coisas regionais.
Como na Rússia, onde vemos muitas bandas jovens misturando no som coisas folclóricas, com músicas um pouco mais pesadas. É bem interessante, fica uma coisa bem maluca.
E tem também as viagens que fizemos, aquela coisa de conhecer países diferentes, outras culturas... a gente foi para Cuba, para as Filipinas, Ucrânia, Bielorússia, Sarajevo, Bósnia, todos esses países pela primeira vez, no ano passado.
Então a gente está sempre tendo informações novas e que mantém nossas ideias, trazendo novas influências.

Vocês voltaram a morar no Brasil e a fazer mais turnês por aqui... antigamente era difícil ver o Sepultura tocar no Brasil, não era algo comum....

É, mas a gente trabalhou para isso. Na época, tínhamos empresários americanos, que até hoje veem o Brasil como Rio de Janeiro, São Paulo, Buenos Aires e Santiago do Chile (risos).
Então nossa batalha foi sempre essa, trazer mais o Sepultura para o Brasil. Porque aqui não se faz um circuito como na Europa. Lá você vai, fica dois meses, toca de segunda a segunda, e depois vai embora, né? Aqui é final de semana, a estrutura do País ainda é precária, as estradas, principalmente para o Nordeste, então a coisa é um pouco mais difícil.
Então a gente resolveu fazer uma coisa mais para o Brasil, mas isso não tirou nosso circuito internacional. Pô, ficamos dois anos e meio fazendo turnê pelo Dante XXI, o mundo ainda é grande. Leva tempo assim, e esse é nosso tempo. Nesse nosso disco a gente pretende ficar dois anos fazendo show, pois ainda temos muito lugar para ir.

Que bandas de rock nacional podem ser citadas como relevantes atualmente?

Putz, cara... acho que são as bandas clássicas, né? O Titãs está vindo com um disco novo, o Paralamas também... infelizmente o Ira! acabou..
São essas bandas que seguram o rock nacional, né? Tem a própria Rita Lee, Charlie Brown Jr., o Skank...

Charlie Brown Jr.?

Eu acho que sim, cara. Charlie Brown é um rock skatista. Que tem uma influência forte de Suicidal Tendencies, uma banda que influenciou muito o Sepultura. E eles estão aí, apesar das mudanças na formação da banda.
Pelo lado metal, tem o Torture Squad, o Claustrophobia, o Krisiun, bandas que também estão conseguindo um espaço fora do Brasil. Então o Brasil é sempre forte, sempre musical, tipo Cuba, uma coisa natural do povo.

Você foi visto em um programa de TV usando a camisa de uma banda capixaba de rock pesado, o Silence Means Death. O que vocês conhecem de som do Espírito Santo?

Ah, meu, não me lembro. A gente recebe muita demo, camisetas, e eu faço sempre questão de ouvir e de usar as camisetas. Eu me lembro do nome dessa banda, eles abriram um show do Sepultura, mas agora não me lembro do som.

É o primeiro disco sem o Iggor e sem o Max, os dois fundadores da banda. Como foi gravar sem eles?

São dois momentos diferentes. O Max saiu há 12 anos, foi uma coisa mais delicada. Ele era o vocalista, o frontman... perdemos não só o vocalista e o frontman como a empresária (a mulher de Max), toda a estrutura do Sepultura.
Então foi um momento muito difícil para o Sepultura. Achar um vocalista novo, o Derrick, que já está com a gente há 12, 13 anos. Então foi um período de adaptação por que a gente passou e só depois o Iggor saiu. Foi diferente, a coisa foi um pouco mais organizada, a transição foi feita mais tranqüilamente.
Então não dá para falar em um disco sem Cavaleras. Não foi um pacotão que saiu. Foi uma coisa de transição, e a gente soube se adaptar às duas.
Acho que a criação da banda é diária. Pode-se chamar o Iggor e o Max de fundadores da banda, mas a fundação dela é diária. É uma banda de 25 anos, sobrevive a vários percalços e obstáculos, entre eles a saída de membros importantes, empresária, mudança de gravadora, mudar para os Estados Unidos, voltar para o Brasil, internet, CD, celular, download, então tem tudo aí no meio, e o mais gratificante é estar vivo como banda.
E criando coisas novas, não sendo escravo do passado. Acho que tem muita gente aí que tenta ser escravo de uma certa época boa e esquece de que está vivo hoje.
A gente não esquece a história do Sepultura, a gente toca músicas da história do Sepultura nos shows, não só as coisas novas, então o mais importante é isso, a cada dia em que a gente acorda a gente estar recriando a banda, recriando a nós mesmos.
Acho que é legal ter um disco novo em 2009, com uma banda nova, atual e atuante, com tesão, vontade de estar ali, batalhar e fazer o Sepultura forte. Isso é mais importante.
O resto são opiniões, que a gente respeita, mas não estamos aqui para ficar alimentando expectativas de pessoas que acham o que o Sepultura tem que ser.

Existe alguma possibilidade de um retorno da formação clássica?

A possibilidade da volta existe, está todo mundo vivo, né, meu? Mas não passa disso (risos).

Não tem nenhuma trama, do tipo, "Ah, vamos voltar daqui a 10 anos"...

Não, não tem disso, não queremos ficar escravos de uma certa época. Um tempo atrás alguns empresários tentaram fazer algumas ofertas mirabolantes...

Dizem que fereceram US$ 1 milhão para a formação clássica voltar, na época....

Poderia ser até 5 milhões, não é esse o ponto. Não adianta ser milionário durante um ano e foder a história da banda por ser uma coisa muito plástica. Sepultura não é isso.
Teve muita reunião de bandas que voltaram, aliás, é a era das reuniões, todo mundo voltou, querendo tirar um troco. Eu assisti ao show do The Police, pô, o Maracanã lotado e tudo, mas foi um show plástico, sem vida.
O Anthrax voltou com a formação clássica e foi um fracasso. Então é muito relativo. As pessoas tentam reproduzir sentimentos que tiveram na adolescência, então a gente tem que respeitar sua época e respeitar o que a gente fez e o que a gente foi.
Respeitando isso, pelo menos eu vou conseguir tranquilo e passar um exemplo digno para os meus filhos. Não quero que ninguém se venda por nada. Eu não vou fazer isso por causa de pressão, acho que o Sepultura tem que fazer uma coisa honesta, tem que se reunir, ensaiar, curtir estar juntos.
Enfim, eu acho que o Sepultura é o que estamos fazendo hoje. Não tem nada mais prazeroso e gratificante do que ganhar dinheiro tranquilamente, sem ter que pisar no rabo de ninguém ou criar conceitos artificiais, tem que ser real, senão não funciona.

O que achou do Cavalera Conspiracy?

Ah, eu achei bem óbvio. Era até esperado. Assim, rolou muita ansiedade, eles se juntaram e parece que depois de dois meses já tinham um disco pronto... então é o material do Max com o Iggor tocando bateria, não é uma coisa que eles fizeram juntos.
Você vê que eles fizeram uns shows, emplacaram umas capas de revistas e sumiram. O som não tem muito conteúdo, não.

Há algum tipo de mágoa com o Max e o Iggor?

Não há mágoa, mas também não há amizade. Eu não falo com o Max desde que ele saiu da banda. Mas só conhecendo para entender o porquê dessas coisas. Não dá para explicar. Vendo de fora, as coisas parecem óbvias, mas não é tão simples quanto parece.
Mas o Iggor saiu, ainda continuou aqui no Brasil. Ele está em outro circuito, mas eventualmente a gente se fala, raramente, na verdade.
Eu não tenho mágoa de ninguém, acho que... Bem, eu respeito a atitude de cada um, o Iggor estava a fim de fazer uma música diferente, então eu dou o maior apoio, acho que cada um tem que fazer aquilo em que acredita mesmo e não ser escravo.
Ele estava se sentindo como um escravo, tipo: "Sou Iggor Cavalera, tenho de ser baterista do Sepultura". Mas não é assim, tem que ser você mesmo e evoluir dessa forma.

Um tempo atrás, você tocou com o Junior Lima (da dupla Sandy & Junior) e fez até uma parceria no disco de rock do Hudson Cadorini (da dupla sertaneja Edson e Hudson)...

(interrompe) O Hudson toca bem pra c...

Como os fãs do Sepultura encararam essa parceria?

Cara, não sei, nem me importo. Como todo o respeito, não é que eu faça as coisas me lixando, como alguns deputados por aí. Eu acho que se eu for pensar no que todo mundo vai pensar no que eu vou fazer, não vou fazer nada.
E eu faço as coisas com muita paixão, convicção. Não toquei sertanejo nenhum, nem com um nem com o outro. O Junior participou comigo de uma jam (ensaio) minha que eu faço até hoje, na qual eu toco rock das décadas de 60 e 70, já participaram Caetano Veloso, Lobão, Paralamas, Ira!, Titãs, mas sempre tocando esse repertório.
Já com o Hudson, foi em um projeto de rock dele. Ele é um exímio guitarrista, um virtuose na guitarra, que pode ser colocado no mesmo nível de Kiko Loureiro, do Edu Ardanuy...
É um cara que tem uma bela técnica, uma influência grande de guitarristas americanos, como Joe Satriani, Steve Vai, e é um projeto que ele está a fim de fazer e que não interfere no que ele está fazendo com a dupla. É um disco muito bem feito, com os irmãos Busic tocando bateria e baixo, um time muito legal. Um som muito bem feito, que ele curte fazer e tem habilidade para fazer.


Existe possibilidade de uma nova parceria com Junior ou Hudson?


Possibilidade sempre tem, mas não há nada planejado.

Já é a quinta vez em que a banda vem a Vitória. Como é tocar para o público daqui?

Tanto em Vitória quanto em Cachoeiro e em Alegre, onde já tocamos, é muito bom. O público capixaba é um público roqueiro. Eu me lembro da primeira vez em que a gente tocou em Vitória. Foi fantástico! Foi um momento muito legal, muita gente ansiosa para nos ver pela primeira vez.
E a partir dali foi classe, né? Superlegal agora a gente estar voltando com o Angra, em uma turnê pelo País inteiro, e Vitória não poderia estar de fora dessa.

O que os fãs podem esperar do show?

O melhor. A gente está muito feliz de estar tocando no Brasil, com disco novo, com essa formação (ele, o baixista Paulo Junior, o vocalista Derrick Green e o baterista Jean Dolabella). A gente está com um setlist muito completo, tocando toda a história da banda, músicas que a gente nunca tocou ao vivo.
A parceria com o Angra está sendo muito positiva. O público está respeitando muito, as duas bandas estão fazendo grandes shows, com uma grande jam no final. Nunca se sabe o que a gente vai tocar, mas que essa jam acontece, ela acontece.


No início, a banda abordava uma temática satânica, agressiva. Esse espírito mudou?

Bem, naquela época, nossas letras eram típicas de death e black metal, bem agressivas. Mas a temática não se difere em nada da do Dante XXI, que cita A Divina Comédia. O inferno de Dante faz qualquer letra desse tipo de banda virar história da carochinha... ou da Bíblia, né, histórias inventadas.

Principalmente no começo foram influências das bandas de que gostávamos, como Venon, Celtic Frost, Hellhammer, Slayer, até copiava muito das frases, e tudo.

Mas com o passar dos anos, conhecendo mais o (idioma) inglês e conhecendo melhor as coisas do Brasil, a banda passou a deixar esse lado místico de lado.

Se bem que eu acho que faz parte, qualquer tipo de misticismo é uma coisa espiritual, e a música é uma coisa espiritual. Isso aí naturalmente é algo que faz parte.

Hoje há muitas bandas cristãs de heavy metal, inclusive evangélicas. O que você acha disso?

Eu aprovo, claro. Acho que cada um fala o que quer, e se o heavy metal ajuda a passar mensagens, sejam elas quais for, acho fantástico. A raiz do heavy metal está no rock n’ roll, está no blues, na estrada, no pacto com o demo na encruzilhada (risos)... mas independente da mensagem, acho que é a força musical que pode atingir públicos diferentes.

E as igrejas usam de tudo para passar sua palavra, seja ela qual for. Mas acho isso saudável, qualquer uso da música é saudável.

Qual sua opinião sobre a questão da briga entre a indústria musical e a Internet?

Acho que é uma guerra perdida. Você vê grandes lojas falindo... aliás, não existe mais loja de CD. Você vai para Nova Iorque, ou para outros lugares, e já não tem mais. E é uma transição ainda, está muito no ar o que vai acontecer.

Mas acho muito bem feito para as gravadoras. É monopólio, jabá para rádio, força a escutar isso ou aquilo... isso não é música, é uma máfia para poucos que controlam. E agora a música está indo direto ao ouvinte.

Agora os artistas estão tendo muito mais chances de mostrar o seu trabalho. Exemplo disso é a Mallu Magalhães, que pela Internet conseguiu um nome, agora segue uma carreira. Isso é muito mais honesto do que escutar rádio e ouvir 15 vezes a mesma música no mesmo dia.

Acho que é um período de transição ainda, mas acho que a música ganha com isso. E consequentemente os músicos e quem gosta de música. Não os verdadeiros frustrados que foram trabalhar em gravadora para tirar um pedaço do bolo.

Em alguma fase da carreira a banda teve problema com drogas?

Não. Heroína é algo que nunca entrou no Sepultura, essa droga que é o grande problema do rock n’ roll. Já perdi amigos, o próprio ex-vocalista do Alice in Chains, o Layne (Staley), que era uma pessoa fantástica, um puta artista.

Fizemos uma turnê juntos em 92, junto com o Ozzy e o Alice in Chains, ele era um cara supergente boa, mas perdido por causa disso.

O rock perdeu Jimi Hendrix, Janis Joplin... o próprio Kurt Cobain, que, apesar de não ter sido de overdose, foi uma consequência, por causa da depressão.

Isso nunca chegou na gente. Acho que graças a essa base familiar, que é uma coisa importante para você não entrar em qualquer balada. É lógico que a gente já experimentou bastante coisa, mas com muita consciência.

E o álcool, eu acho que é um dos maiores problemas, sabe? É legal, pode ser comprado em qualquer lugar. E quando você tem banda, os camarins estão cheios de goró... e acho que você tem que se cuidar. Senão você não aguenta, pois é show todo dia.

Mas há exemplos como o Lemmy, do Motorhead, por exemplo. Ele está na estrada, já fez e continua fazendo de tudo, cada um tem um organismo diferente. Cada um reage de uma forma. O importante é você não perder a vida por causa de uma festinha.